O transplante de córnea é hoje um dos procedimentos mais realizados na oftalmologia, mas ainda enfrenta desafios importantes no Brasil — desde a falta de doadores até a desinformação sobre como funciona a doação. Essa estrutura é essencial para a visão, e quando sofre danos por doenças, traumas ou condições degenerativas, pode deixar de cumprir sua função, causando perda visual significativa. Para milhares de pessoas, o transplante representa não apenas a chance de recuperar a nitidez da visão, mas também de retomar a autonomia e qualidade de vida.
O que é a córnea e por que ela é tão importante
A córnea é a camada transparente que recobre a parte frontal do olho e corresponde à principal superfície responsável por refração da luz. Suas cinco camadas trabalham de forma integrada para garantir curvatura, transparência e proteção contra agentes externos. Quando essas estruturas são afetadas por infecções, distrofias, traumas ou deformações como o ceratocone, a córnea pode perder sua forma ou ficar opaca, comprometendo de maneira importante a qualidade da visão.
Doenças e condições que podem levar ao transplante de córnea
Diversas alterações estruturais ou funcionais podem comprometer a integridade da córnea a ponto de exigir sua substituição. Entre as principais indicações para o transplante estão:
- Ceratocone: doença ectásica caracterizada pelo afinamento progressivo e pela deformação da córnea em formato de cone. Em estágios avançados, provoca irregularidades refrativas significativas que não respondem mais a lentes rígidas ou outros tratamentos conservadores.
- Distrofias corneanas (como a distrofia de Fuchs): condições geralmente hereditárias que afetam camadas específicas da córnea, sobretudo o endotélio. A perda funcional dessas células leva ao edema corneano crônico, perda de transparência e piora gradual da visão.
- Cicatrizes e opacidades: infecções severas (úlcera bacteriana, viral ou fúngica), queimaduras químicas ou traumas penetrantes podem gerar cicatrizes estromais extensas, reduzindo a transmissão de luz e distorcendo a visão.
- Edema corneano: quando há falência das células endoteliais, responsáveis pelo bombeamento de fluido para fora da córnea, ocorre acúmulo de líquido no estroma. Essa condição torna a córnea espessada e turva, causando visão embaçada persistente.
- Outras indicações: perfurações, degenerações menos frequentes, tumores de superfície ocular ou sequelas de cirurgias pregressas também podem tornar a córnea funcionalmente inviável e justificar o transplante.
Quando terapias menos invasivas não conseguem preservar a transparência ou a geometria da córnea, o transplante passa a ser a intervenção mais eficaz para restaurar a função visual.
Quantas pessoas esperam por um transplante de córnea no Brasil?
A demanda para transplante de córnea no Brasil é alta. Segundo dados do Ministério da Saúde e de entidades médicas:
- A média de espera por um transplante de córnea no Brasil, segundo reportagem da Agência Brasil, é de 374 dias, mais que o dobro da média de uma década atrás.
- O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) apontou que até julho de 2025 havia 31.240 pessoas na fila para transplante de córnea.
- Até 2025, mais de 32 mil pessoas aguardavam por uma córnea.
- Em 2024, foram realizadas 17.107 cirurgias de transplante de córnea no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde.
Esses números mostram que, embora o transplante de córnea seja relativamente frequente, a oferta ainda não atende completamente a demanda: muitas pessoas na fila aguardam por bastante tempo.
Como funciona a fila para transplante de córnea
Ao contrário de órgãos sólidos, o transplante de córnea não depende de compatibilidade imunológica complexa, como tipagem HLA ou compatibilidade sanguínea estrita. Por isso, a dinâmica da fila segue critérios mais objetivos e padronizados pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT):
- Inscrição na lista de espera: o paciente é incluído na fila por um médico credenciado ao SNT, após avaliação clínica e definição da indicação cirúrgica.
- Organização da fila: cada estado ou região possui uma lista única, em que a prioridade geralmente é determinada pelo tempo de espera, podendo haver exceções para casos específicos, como risco de perfuração ou perda rápida de visão.
- Avaliação do doador: os Bancos de Olhos realizam uma triagem rigorosa, analisando histórico médico, exames sorológicos, causas do óbito e a integridade da córnea. O objetivo é garantir a qualidade do tecido e minimizar riscos ao receptor.
- Compatibilidade: como a córnea é um tecido avascular nas condições normais, a necessidade de compatibilidade imunológica é reduzida. Assim, potenciais doadores raramente são excluídos por questões como tipo sanguíneo ou incompatibilidade genética — critérios fundamentais em outros tipos de transplantes, mas muito menos relevantes na oftalmologia.
Na prática, isso significa que fatores imunológicos representam menos barreiras no transplante de córnea, tornando o processo mais ágil e permitindo que um maior número de pacientes seja atendido quando há disponibilidade adequada de tecido.
Riscos e complicações do transplante de córnea
Apesar de ser uma das cirurgias com maior taxa de sucesso dentro da oftalmologia, o transplante de córnea envolve riscos inerentes ao procedimento cirúrgico e à resposta biológica do tecido transplantado. As principais complicações incluem:
- Rejeição do enxerto
Mesmo sendo um tecido relativamente pouco vascularizado, a córnea pode desencadear resposta imunológica contra o enxerto. A rejeição pode ocorrer semanas, meses ou até anos após a cirurgia. O tratamento e a prevenção envolvem o uso contínuo de colírios anti-inflamatórios e imunossupressores, ajustados conforme a evolução clínica.
- Infecção intraocular ou da superfície ocular
Toda intervenção ocular aumenta o risco de infecção. No transplante, esse risco está associado tanto ao ato cirúrgico quanto à manipulação do tecido. Por isso, o período pós-operatório exige higiene rigorosa, uso correto dos colírios prescritos e acompanhamento oftalmológico frequente.
- Aumento da pressão intraocular (glaucoma)
Alterações na dinâmica dos fluidos oculares podem ocorrer após o transplante, levando ao aumento da pressão intraocular. O controle dessa pressão é essencial, já que níveis elevados e persistentes podem comprometer o nervo óptico e a visão.
- Falência do enxerto
Em alguns casos, o tecido transplantado não mantém sua vitalidade ou transparência ao longo do tempo. Isso pode acontecer devido a danos ao endotélio, inflamação persistente, rejeição subclínica ou complicações cirúrgicas.
- Irregularidades de cicatrização
A interface cirúrgica pode cicatrizar de maneira desigual, resultando em astigmatismo elevado, opacidades ou alterações na curvatura da córnea. Em certos casos, procedimentos adicionais — como laser ou lentes especiais — podem ser necessários para melhorar a qualidade visual.
- Necessidade de retransplante
Quando há falência completa do enxerto, rejeição grave ou deterioração progressiva da transparência, um novo transplante pode ser indicado. A taxa de sucesso em retransplantes é geralmente menor, exigindo monitoramento ainda mais intenso.
Pesquisa, inovação e o futuro do transplante de córnea
Os desafios do transplante de córnea motivam novas pesquisas e inovações tecnológicas que prometem transformar esse campo nos próximos anos.
Pesquisadores têm estudado o cultivo das células endoteliais da córnea (essas células são importantes para manter a transparência) em laboratório para reimplantar apenas células — em vez de substituir toda a córnea. Isso poderia reduzir o risco de rejeição e tornar o procedimento menos invasivo.
Há projetos experimentais que investigam o uso de tecido de animais (como córneas suínas) para transplante humano. Essas pesquisas ainda estão em fases iniciais, mas representam uma alternativa promissora para ampliar a oferta de córneas. (Por exemplo, já há relatos sobre novidades vindas do Oriente usando esse tipo de abordagem.)
Principais obstáculos para ampliar os transplantes de córnea
Embora o transplante de córnea seja um procedimento altamente efetivo, sua expansão no Brasil enfrenta desafios estruturais, logísticos e sociais. Entre os principais obstáculos estão:
- Oferta limitada de doadores
Apesar do grande número potencial de doadores, a captação de córneas ainda ocorre de forma aquém do ideal. Fatores como negativa familiar, falhas na notificação de óbitos e insuficiência de equipes capacitadas para a abordagem aumentam o desperdício de tecidos viáveis.
- Desigualdade regional
A distribuição de Bancos de Olhos e centros transplantadores é desigual no país. Regiões com infraestrutura consolidada realizam mais captações e cirurgias, enquanto áreas com menor capacidade técnica enfrentam longos tempos de espera, criando disparidades significativas no acesso ao tratamento.
- Capacidade limitada dos centros transplantadores
Nem todos os hospitais possuem equipe especializada, equipamentos ou habilitação para realizar transplantes de córnea. Essa limitação reduz o número total de procedimentos possíveis, mesmo quando há tecido disponível.
- Custos e desafios logísticos
A cadeia de transplante depende de logística altamente sensível: preservação adequada da córnea, transporte rápido, triagem criteriosa nos Bancos de Olhos e manutenção do tecido em condições ideais. Todos esses processos demandam recursos, infraestrutura e profissionais especializados.
- Alta taxa de recusa familiar
A negativa de familiares continua sendo um dos maiores gargalos na doação de tecidos. Embora campanhas de conscientização tenham ampliado o conhecimento sobre o tema, a taxa de autorização ainda é insuficiente para suprir a demanda nacional. Para enfrentar esse cenário, o Ministério da Saúde implementou o Programa de Qualidade em Doação para Transplante (PRODOT), que capacita equipes hospitalares para a abordagem humanizada das famílias, visando aumentar as taxas de consentimento.
- Acompanhamento pós-transplante
O sucesso do transplante depende de seguimento clínico prolongado, uso de colírios específicos e monitoramento constante. Em regiões com menor acesso a consultas ou medicamentos, esse acompanhamento pode ser comprometido, colocando em risco a integridade do enxerto e os resultados cirúrgicos.
Por que a doação de córnea é tão importante — e como você pode ajudar
A doação de córnea tem um impacto transformador: devolve a visão, melhora a qualidade de vida e reduz a fila de espera. Com técnicas cada vez mais avançadas, os transplantes apresentam alta taxa de sucesso — e quanto mais doações, maior o potencial de crescimento, inovação e acesso em todo o país. A conscientização também é essencial, já que muitas famílias ainda desconhecem como funciona o processo de doação.
Como você pode contribuir:
- Converse com sua família sobre seu desejo de ser doador — isso facilita a autorização no futuro.
- Compartilhe informações e ajude a ampliar a conscientização sobre o tema.
- Apoie iniciativas, campanhas e organizações que incentivam a doação de órgãos e tecidos.
- Busque informações sobre bancos de olhos e o processo de doação na sua região.
Referências
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-08/tempo-de-espera-por-transplante-de-cornea-no-brasil-dobra-em-10-anos
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/brasil-bate-recorde-de-transplantes-e-anuncia-medidas-para-modernizar-sistema-e-aumentar-doacoes
https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/snt/faq/cornea/como-funciona-a-lista-de
https://site.abto.org.br/wp-content/uploads/2020/08/Manual-dos-transplantesebook-versao-2022_compressed-1.pdf
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/brasil-bate-recorde-de-transplantes-e-anuncia-medidas-para-modernizar-sistema-e-aumentar-doacoes